Relação entre fatores motores, linguísticos e temperamentais nos subtipos epidemiológicos de gagueira persistente e recuperada: achados iniciais
Relation of motor, linguistic and temperament factors in epidemiologic subtypes of persistent and recovered stuttering: Initial findings
Nicoline G. Ambrose, Ehud Yairi, Torrey M. Loucks, Carol Hubbard Seery e Rebecca Throneburg.
Journal of Fluency Disorders, 45, 12–26.
Tradução e síntese de Eliana Maria Nigro Rocha
Ambrose et al. (2015) realizaram um estudo longitudinal que investigou fatores associados à persistência e à recuperação da gagueira do desenvolvimento em crianças pré-escolares. Eles analisaram simultaneamente quatro domínios: epidemiologia, linguagem, controle motor da fala e temperamento.
Hipótese inicial: crianças que posteriormente se recuperam apresentariam um perfil mais semelhante ao de crianças com fluência típica, enquanto aquelas cuja gagueira persiste exibiriam diferenças consistentes nesses domínios.
Foram acompanhadas 81 crianças com gagueira, recrutadas até 12 meses após o início dos sintomas, e 40 crianças fluentes como grupo controle. Ao final do acompanhamento, 58 crianças com gagueira (as que terminaram o experimento) puderam ser classificadas: 19 com gagueira persistente e 39 recuperadas, correspondendo a uma taxa de recuperação de aproximadamente 67%. A classificação levou em conta a frequência de disfluências, a gravidade e a manutenção ou ausência da gagueira ao longo do tempo.
Principais resultados
Epidemiologia
Os grupos persistente e recuperado não diferiram quanto ao sexo ou à idade de início da gagueira, diferentemente de estudos anteriores. Inicialmente, ambos grupos apresentavam níveis semelhantes de disfluências, mas, após aproximadamente um ano, as trajetórias passaram a divergir: o grupo persistente manteve índices elevados de disfluências, enquanto o grupo recuperado evoluiu progressivamente até se tornar semelhante ao grupo controle.
Linguagem
As crianças com gagueira persistente apresentaram desempenho inferior em testes padronizados de linguagem receptiva durante o acompanhamento. Embora permanecessem dentro da faixa de normalidade, demonstravam desenvolvimento linguístico menos avançado que os grupos recuperado e controle. Não foram observadas diferenças consistentes na linguagem expressiva nem na extensão média dos enunciados (MLU). Em relação à fonologia, no início do estudo tanto o grupo persistente quanto o recuperado apresentavam menor precisão na produção dos fonemas de aquisição tardia em comparação ao grupo controle.
Controle motor da fala
Os resultados sugeriram maior variabilidade do controle motor da fala nas crianças com gagueira persistente, evidenciada por medidas acústicas e cinemáticas. Entretanto, essas diferenças não se mostraram totalmente consistentes ao longo de todas as avaliações, indicando que os indicadores motores podem contribuir para distinguir persistência e recuperação, mas não constituem marcadores isolados suficientemente estáveis.
Temperamento
Não foram encontradas diferenças entre os grupos nos fatores de Extroversão ou Autorregulação (Effortful Control). A principal diferença ocorreu na Afetividade Negativa: os pais das crianças cuja gagueira persistiu atribuíram escores mais elevados a esse fator, especialmente no que se referia à questão de medo e de menor facilidade para serem acalmadas (soothability). Esses achados sugerem uma associação entre maior afetividade negativa e persistência da gagueira, embora os autores ressaltem que ainda não é possível determinar se essas características antecedem ou decorrem da persistência do transtorno.
Integração dos achados
Ao longo do acompanhamento, as diferenças entre os grupos mostraram um padrão consistente. As crianças com gagueira persistente apresentaram desempenho linguístico menos desenvolvido, maior variabilidade em medidas de controle motor da fala e um perfil de temperamento mais marcado por afetividade negativa. Em contraste, as crianças que se recuperaram aproximaram-se progressivamente do desempenho observado nas crianças fluentes.
Conclusões
Os autores concluem que há evidências crescentes de que a gagueira persistente e a recuperada constituem subtipos distintos da gagueira do desenvolvimento. Os resultados convergem com pesquisas recentes sobre linguagem, controle motor e morfologia cerebral, embora ainda não exista uma teoria capaz de explicar adequadamente esses subtipos. Também destacam a necessidade de estudos mais refinados sobre temperamento e genética para compreender como esses diferentes domínios contribuem para a persistência ou recuperação da gagueira.