Eliana Maria Nigro Rocha

 e-gagueira.com.br

 

Distúrbios da Fluência

aqui          A Fonoaudiologia consiste na ciência que tem por objeto o estudo da comunicação e seus distúrbios [1]. Dentro dessa área de atuação, tão vasta, tinhamos em  2010 sete áreas de especialidade: Audiologia, Disfagia, Fonoaudiologia Escolar-Educacional, Linguagem, Motricidade Orofacial, Saúde Coletiva e Voz.  



                                               
 

 

          Em resolução datada de 26.09.2014 o Conselho Federal de Fonoaudiologia reconheceu novas áreas de especialidade: a Fonoaudiologia Neurofuncional, Fonoaudiologia do Trabalho, Gerontologia e Neuropsicologia. [2]

 

          Assim, como atualmente algumas das especialidades ainda abrangem várias alterações da comunicação, encontramos profissionais que buscam subespecializações.  Dentro da área da Linguagem, temos, entre outros, os profissionais que se dedicam especificamente aos Distúrbios de Fluência, estudando mais a fundo as ocorrências de fala nas quais o ritmo se encontra alterado. Em determinados textos científicos, essa subárea recebe o nome de Disfemia. 

 

          É lamentável que a área da Fluência ainda não tenha conseguido ser considerada uma especialidade, apesar dos esforços de tantos de nossos profissionais. Isso soa como um atraso nacional quando verificamos a situação em outros países nos quais há muitos anos isso já se estabeleceu, propiciando grande crescimento nos estudos e atendimentos à população. Felizmente, em outubro de 2015 o Instituto Brasileiro de Fluência- IBF reuniu novas forças e está lançando o movimento Fluência no Brasil. Em agosto de 2016 redigi um texto voltado a este tema, que foi revisto pelo grupo do IBF e pode ser lido aqui.

 

          Existem alguns tipos de Distúrbios de Fluência. Temos em seguida a apresentação de um tradicional quadro de classificação desses distúrbios, organizado por um consagrado estudioso, Godfrey Arnold, em 1965 [3]. Logo após veremos como esta listagem foi intrinsecamente modificada com os novos conhecimentos surgidos desde então.

 

 

CLASSIFICAÇÃO DE ARNOLD (1965)

 

(1) disfemia taquifêmica: de causa orgânica, hereditária, resultado de uma inabilidade de linguagem congênita. Intervenções inadequadas ou ambiente desfavorável podem trazer, como reação secundária, uma gagueira.

 

(2) gagueira sintomática: associada à disartria, causada por lesões cerebrais como as decorrentes de problemas no parto, incompatibilidade de Rh, encefalite ou trauma craniano acidental. No adulto, como decorrência de determinados danos cerebrais, pode surgir a gagueira afásica. Existe ainda apalilalia relacionada a distúrbios extrapiramidais e a disartria iterativa resultante de lesões cerebelares.

 

(3) gagueira desenvolvimental: relacionada a tendências psiconeuróticas familiares. As explicações psicológicas da gagueira são as mais apropriadas nestes casos, que são numericamente frequentes. Uma propensão psíquica similar deve ser considerada para os casos de imitação de gagueira e gagueira temporária durante a puberdade. Todas estas formas de gagueira, que podem ser explicadas por fatores psicológicos, encaixam-se bem no grupo de disfemia idiopática ou disfemia genuína.

 

(4) gagueira fisiológica ou disfluência: imaturidade linguística normal até o 3º ou 4º ano de vida. Na visão semantogênica de Johnson, esta disfluência pode se transformar em gagueira se o meio intervier inadequadamente.

 

(5) gagueira traumática: passível de ser entendida somente através de avaliação psiquiátrica. É decorrente de um colapso do controle neurovegetativo em uma pessoa que anteriormente apresentava uma boa condição psicossomática. Pode surgir em decorrência de situações extremamente estressantes, como experiências traumáticas em períodos de guerra, por exemplo.

 

(6) gagueira histérica : embora os sintomas sejam semelhantes aos da gagueira traumática, a etiologia é diferente. Esta gagueira é uma reação de conversão que afeta indivíduos que apresentam uma psicopatia constitucional.

 

 

CLASSIFICAÇÃO ATUAL

 

Na atualidade, dentro desta terminologia de Arnold para a subdivisão dos Distúrbios da Fluência, são mais aceitos os termos:

 

(1) taquifemia (ao invés de disfemia taquifêmica). Informações complementares em taquifemia.

 

(2) gagueira neurogênica (em vez de gagueira sintomática). Você pode obter mais informações em gagueira neurogênica.

 

(3) gagueira do desenvolvimento (ao invés de gagueira desenvolvimental). Este tópico é descrito mais detalhadamente em gagueira. É preciso ressaltar que, de acordo com as mudanças realizadas no DSM-5, a nomenclatura correta atual seria "distúrbio da fluência com início na infância" (childhood-onset fluency disorder).[4]

 

(4) disfluência (o termo "gagueira fisiológica" caiu em desuso, uma vez que esta não é uma ocorrência típica ao desenvolvimento de fala de todas as crianças). Obtenha mais informações em disfluência

 

(5) não temos estudos recentes que justifiquem a utilização do termo gagueira traumática, embora cada relato de paciente nos leve a investigar melhor sua história, buscando elucidar melhor o ocorrido e verificar a presença de eventuais fatores predisponentes à gagueira.

 

(6) gagueira psicogênica (em lugar do termo gagueira histérica). Encontre mais informações em gagueira psicogênica

          Por surgirem após a linguagem e a fluência já se encontrarem estabelecidas, tanto a gagueira psicogênica como a gagueira neurogênica são categorizadas como gagueira adquirida.

 

 

SINTETIZANDO

 

                Os Distúrbios da Fluência compreendem a Gagueira e a Taquifemia. Alguns autores consideram ainda outra modalidade, a Taquilalia, que seria uma fala com velocidade mais acelerada.

                A Gagueira pode ser classificada como Gagueira do Desenvolvimento ou Gagueira Adquirida. Essa, por sua vez, pode ser classificada como Gagueira Neurogênica ou Gagueira Psicogênica.

 

                Atualmente, a evolução dos estudos genéticos nos leva a classificar a Gagueira do Desenvolvimento como familial (dois ou mais indivíduos de uma mesma família apresentam o quadro) ou isolada (só um indivíduo daquela família apresenta gagueira). Em qualquer uma dessas modalidades podemos ter a gagueira que persiste ou a recuperada. Temos ainda a divisão da gagueira recuperada em precoce (quando a recuperação ocorre até 18 meses após o início da gagueira) ou tardia (quando ocorre entre 18 e 36 meses após seu início). [5]

 

 

 

 


 

ALGUNS COMENTÁRIOS A MAIS

 

          É importante frisar a importância dos estudos atuais, que têm constatado a presença tanto de alterações genéticas como neurológicas nos portadores de gagueira do desenvolvimento, de modo que essas características, que eram vistas como pertencendo à taquifemia ou à gagueira neurogênica, agora não são mais consideradas como critério de diferenciação entre esses tipos de Distúrbios de Fluência. Por outro lado, algumas das injúrias que ocorrem bem no início do desenvolvimento infantil - e que nos conduziriam a classificar o distúrbio de fala decorrente como uma gagueira neurogênica - podem ser causas subjacentes à gagueira do desenvolvimento, sendo necessários maiores estudos para elucidar esses achados.

 

          Temos ainda que, após tantos anos sob a influência dos conceitos derivados da teoria diagnosogênica (ou semantogênica) de Johnson, sua visão - de que uma disfluência pode se transformar em gagueira - passou a ser desconsiderada em decorrência dos achados das pesquisas mais atuais que evidenciarem diferenças no funcionamento cerebral nas pessoas que gaguejam. Isto - embora tenha o valor tão significativo de constatar que os pais não são culpados pela gagueira que seus filhos apresentam - não invalida o efeito positivo das atitudes que efetivamente favorecem o desenvolvimento da fluência.

 

          Finalizando, podemos focar outro grande divisor de águas: a constatação de que a eventual alteração emocional é uma consequência - e não a causa - da gagueira do desenvolvimento. Os achados das pesquisas recentes na área das neurociências clarearam essa antiga - e infelizmente até hoje popular - ideia de que gagueira seria sinônimo de nervosismo ou insegurança.

      



[1] http://www.fonoaudiologia.org.br/publicacoes/epdo1.pdf - pg 5

[2] http://www.fonoaudiologia.org.br/cffa/wp-content/uploads/2013/07/res-453-2014-novas-especialidades.pdf
[3] LUCHSINGER, Richard e ARNOLD, Godfrey E. Voice-Speech-Language. Clinical Communicology: Its Physiology and Pathology. Wadsworth Publishing Company. California. 1965

[4] http://www.dsm5.org/Documents/changes%20from%20dsm-iv-tr%20to%20dsm-5.pdf
[5] OLIVEIRA, BV et al. Gagueira desenvolvimental persistente familial: perspectivas genéticas. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012;17(4):489-94