Eliana Maria Nigro Rocha

 e-gagueira.com.br

 

Gagueira - Adolescente


          A adolescência, de um modo geral, é vista como uma fase turbulenta, de grandes desacertos entre um corpo praticamente adulto e uma mente ainda não totalmente amadurecida. Aquela criança de pouco tempo atrás vai deixando de existir, ou melhor, vai sendo absorvida por um novo modo de ser, repleto de novidades e possibilidades.

           Muitas modificações surgem na adolescência, grande parte delas arrebatadoras, difíceis de lidar devido à inexperiência de conviver com as mesmas. Se, normalmente, na infância o indivíduo conta com a presença de um adulto por perto para lhe dar diretrizes, na adolescência, por suas características intrínsecas, ele começará sua tentativa de seguir sozinho. Afinal, esta fase é um treino inicial de independência. A gagueira, para estes jovens, pode ser mais uma questão complexa ou então uma velha - e em geral, não muito querida - companheira.

           Pela sua própria definição, a gagueira do desenvolvimento surge na primeira infância e para cerca de um quarto desta população continuará presente no decorrer da vida, a menos que já tenha sido trabalhada anteriormente. É comum que a gagueira que se manifesta na adolescência seja na realidade a evidenciação de uma dificuldade anterior, que irrompe mais visível em uma época em que o mundo precisa refazer seu sentido aos olhos do adolescente. Importantes modificações hormonais e cerebrais estão ocorrendo neste período [1] e algumas delas poderão afetar ainda mais desfavoravelmente o ritmo da fala.

          No que se refere à terapia de fala, o adolescente era visto como um grande problema, uma vez que as técnicas de trabalho que existiam eram direcionadas apenas às crianças ou aos adultos. Os novos estudos, com abordagens específicas para esta faixa etária, vieram desmitificar a ideia de que a adolescência seria uma fase na qual tantas questões vêm tomar espaço na mente do indivíduo que a terapia de gagueira ficaria em segundo plano, sem possibilidades de ser efetuada a contento.

           Podemos considerar que o adolescente que gagueja - pessoa em trajeto da infância para a vida adulta - apresenta características que constituem uma mescla das que encontramos nas demais categorias de idade citadas.

          Em parte, isto é verdade. O adolescente que gagueja tem ainda uma boa dose de labilidade, de flexibilidade da infância, enquanto o adulto já mostra maior dificuldade de efetuar modificações. Ao mesmo tempo, o adolescente tem uma motivação que lhe permite um empenho diverso daquele que, de modo geral, uma criança apresentaria. Quando estas duas características benignas estão presentes, o trabalho costuma surtir um efeito muito positivo. Assim, temos em nossa experiência clínica a constatação de que adolescentes que efetivamente se sentem motivados a trabalhar sua fluência, desabrocham em inúmeros sentidos, de modo aparentemente simples quando comparados com as demais faixas etárias. Eles aprendem a se colocar melhor ante os demais, a enfrentar suas limitações, a encontrar a segurança dentro de sua fragilidade, a perceber de modo mais realista a comunicação com seus companheiros e familiares. Se a adolescência é a fase de se definir, a terapia fonoaudiológica tem instrumental para contribuir com este processo.

           Por outro lado, é essencial valorizar o adolescente com suas características específicas, tão diversas daquelas da infância e da idade adulta. É vital buscar estar atualizado para poder conversar com ele de modo efetivo, inclusive reconhecendo os inúmeros aspectos nos quais ele nos supera. Através de uma interação honesta e plena podemos atingi-lo mais facilmente, entendendo a razão de suas defesas e deixando que ele se exponha na medida das suas possibilidades. O respeito mútuo fornece as bases de um trabalho terapêutico amplo e de qualidade.


PARA OS PAIS

          Boa parte das orientações fornecidas no final do texto “Gagueira Infantil” também são válidas para o adolescente, com os ajustes adequados à sua idade.

          Entre estas adequações temos que os pais podem sugerir ao adolescente que faça um tratamento, mas devem ter sua permissão antes de procurar um profissional. O real interesse dele em fazer uma terapia é que permitirá um bom resultado.


          Seja qual for a decisão dele, facilite sua comunicação com algumas outras diretrizes como: não completar suas palavras ou frases e não dar conselhos a respeito de sua fala. Fique atento à questão das zombarias e provocações dos outros irmãos ou adolescentes em geral, passíveis de acontecer nesta faixa etária. Isto pode trazer perturbações emocionais e até mesmo físicas ao seu filho, quando consideramos o bullying.[2]

          Estimule-o a desenvolver outras habilidades, sejam esportivas, musicais, sociais ou culturais. Forneça a ele oportunidade de participar de outras atividades além das escolares, de modo a ampliar suas possibilidades de contato. Olhe-o com olhos generosos, que leva em consideração o fato de que ele ainda está se construindo como pessoa e fortaleça sua auto-estima com comentários honestos a respeito de suas características positivas e com ponderações verdadeiramente maduras sobre comportamentos que deixam a desejar.

          As orientações voltadas aos pais quando se trata de crianças pequenas podem ser resumidas na palavra “cuidados” que devem ser tomados para evitar prejudicar e também para favorecer a evolução benigna de sua fala. Quando se trata do adolescente, a palavra em questão é “respeito”. Poucos conseguem atinar a miríade de sentimentos que podem povoar o mundo de uma pessoa que gagueja. É difícil captar quantos entraves encontra um jovem que tem rupturas em sua fala e se depara constantemente com situações novas e desafiadoras. Respeite! Seu filho está dando seus primeiros passos em direção à vida adulta e a aceitação por parte de seus pais é muito significativa para ele, especialmente neste momento.


PARA OS PROFESSORES

          Na página TEXTOS E LIVROS, temos, como um dos subtítulos de acesso: Sugestões de atitudes que o professor pode tomar ante a gagueira e seus desdobramentos
. Nesse Power Point focamos todas as faixas etárias. Aqui, vamos frisar e complementar algumas sugestões mais diretamente voltadas para o adolescente.

RECONHEÇA O ALUNO QUE GAGUEJA:

1. Muitos alunos que gaguejam se esmeram em estudar e tirar boas notas para poder fugir de questionamentos e dos temidos seminários. É mais fácil para eles dizerem “"não sei”", até para questões básicas, do que se expor falando, correndo o risco de gaguejar em frente à classe.

2.Grande parte deles se mantém isolada ou apenas acompanham algum grupo, quase sem conversar com os colegas. Outros assumem um papel oposto, são barulhentos e falam imitando algum personagem (uma vez que assim fazendo conseguem falar fluentemente).

3. As dificuldades relacionadas à situação de fala variam entre as pessoas que gaguejam. Alguns têm mais dificuldade em ler, outros em responder questões. Verifique como é isto para seu aluno em questão.

ATUE DE MODO A FACILITAR A COMUNICAÇÃO DO ALUNO QUE GAGUEJA:

4. Mantenha sua naturalidade ao falar com o adolescente que gagueja. Sabendo da seriedade deste quadro, brincadeiras estão totalmente fora de cogitação.

5. Evite completar o que ele está tentando dizer, a menos que ele tenha lhe solicitado algo diferente.

6. Ouça atentamente, mantendo o contato de olhar.

7. Se sentir que sua empatia com este aluno lhe permite se aproximar mais, fale com ele em particular e pergunte se há algo que pode fazer para facilitar sua comunicação.

8. Podendo conversar com ele, encaminhe-o a um fonoaudiólogo especializado em fluência, caso exista esta possibilidade.

9. A chamada de presença costuma ser o terror para a maioria deles ou então as apresentações em início de ano letivo quando precisam dizer seu nome. São situações de fala curta, mas extremamente constrangedoras para quem gagueja. Se puder, crie alternativas.

10. Precisando fazer chamada oral, questione em segundo ou terceiro lugar seu aluno que gagueja, a espera aumenta muito a ansiedade e torna sua fala mais difícil.

11. Se for possível fazer os seminários para pequenos grupos, isto pode facilitar a fala do aluno que gagueja e lhe dar mais confiança para se expor para a classe toda futuramente.

12. Leitura em duplas ou leitura coral facilita a fala de quem gagueja e é um ótimo treino para a classe.

TRABALHE A QUESTÃO COM A CLASSE:

13. A atitude do professor transmite aos alunos a importância de respeitar as dificuldades específicas de cada um.

14. Oriente a classe como um todo sobre as boas maneiras da comunicação: falar devagar, em tom natural, olhar para quem fala, esperar o outro terminar sua fala antes de iniciar a sua, procurar ser sucinto e direto.

15. Oriente a classe toda para que respondam calmamente. Faça a este seu aluno que gagueja perguntas que possam ser respondidas com menor quantidade de fala. De preferência, formule as questões para todos, antes de solicitar que alguém responda. Isto fará com que toda a classe pense na resposta e que tenham tempo de elaborar algo.

16. Se a fala do aluno que gagueja não é compreendida pelo restante da turma, repita o que ele disse, concordando com o que ele falou ou mesmo corrigindo com suavidade o que foi dito.

17. Mantenha-se atento para as ocorrências de bullying [2]
, de modo geral, e mais especificamente quando relacionados ao aluno que gagueja, uma vez que 59% das crianças que gaguejam referem ser ridicularizadas e 56% referem que isto ocorre uma vez por semana [3]. Este aluno precisará de alguém que norteie o comportamento do grupo, caso contrário os efeitos podem ser desastrosos.

18. Obviamente nem tudo depende do professor, mas se este tiver oportunidade de auxiliar, poderá ajudar a transformar um período de vida conturbado em uma experiência muito positiva para o adolescente.


LIVRETO SOBRE GAGUEIRA DIRECIONADO AOS ADOLESCENTES

Ensaio sobre a gagueira - Eliana Maria Nigro Rocha e Paulo Amaro Martins. Ilustrações: Andrea Marquezi Odri



[1] Herculano-Houzel, Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

[2] http://bullyingcyberbullying.com.br/bullying/o-que... . Acessado em 15.12.12
[3] Langevin, Bortnick, Hammer & Wiebe, 1998 e Langevim, 2000
citados em Bullying and Teasing: helping children who stutter. USA: National Stuttering Association, 2004




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